Evento festivo celebra a reabertura do Engenho Massangana em novo formato

Na data que marca os 173 anos de nascimento de Joaquim Nabuco, local onde o abolicionista viveu parte da infância agora foca na memória e legado do povo negro

Nesta sexta-feira (19), o casarão onde Joaquim Nabuco viveu até os oito anos de idade encheu-se de vida para celebrar a reabertura do Parque Nacional da Abolição, no Engenho Massangana, município do Cabo de Santo Agostinho, após dois meses fechado para reparos estruturais. A data que marca o aniversário de 173 anos de nascimento do abolicionista foi a escolhida para inaugurar a nova fase do equipamento cultural vinculado ao Museu do Homem do Nordeste (Muhne), da Fundação Joaquim Nabuco. Participaram da solenidade os funcionários do espaço e demais colaboradores da Fundaj, o presidente da Fundação, Antônio Campos, a presidenta do TCU Ana Arraes, o diretor de Memória, Educação, Cultura e Arte da Funda, Mario Helio, o artista Jeff Allan, e a Coordenadora Geral do Muhne, Fernanda Guimarães.

A partir de agora, a casa grande do engenho passa a exaltar as vivências negras, que tanto permearam a existência do seu mais ilustre morador. Ressignificada, ela abordará outras histórias, com novos protagonistas. É o que mostra as exposições Masanganu: memórias negras e Jeff Alan: pra deixar de ser “pra inglês ver”, inauguradas hoje no espaço.

Abrindo a solenidade, Fernanda Guimarães exaltou o novo período da história do Engenho Massangana. “Daqui em diante, esse será um espaço não apenas dedicado a celebrar a memória abolicionista de Nabuco, mas também a celebrar a imensa contribuição dos negros à cultura brasileira. É com grande satisfação que posso afirmar que hoje, na prática, o Engenho Massangana dispõe de um expressivo número de mais de 50 profissionais empenhados nessa tarefa”.

Em seguida, Ciema Melo, antropóloga do Muhne, também afirmou a importância do compromisso adotado pela gestão da Fundaj em exaltar a contribuição dos africanos à constituição da nacionalidade brasileira. “Nos dá Fundaj aceitamos que, para a abolição se confirmar de verdade, é necessária a distribuição democrática massiva e persistente de quatro coisas: educação, memória, cultura e arte, e é isso que a gente está tentando fazer”, disse Ciema, que é uma das curadoras da exposição do artista Jeff Allan junto a Silvia Barreto e Fernando Alvim.

Além da inauguração das duas mostras, o evento de reabertura do Parque Nacional da Abolição ao público também contou com o lançamento do livro “Camões e os Lusíadas”, obra pouco conhecida de Joaquim Nabuco que ganhou uma nova edição digital pela Editora Massangana. O livro será lançado fisicamente na cidade de Coimbra, em Portugal, no próximo mês. O diretor da Dimeca, Mario Helio, aproveitou a ocasião para ressaltar que Nabuco era, antes de tudo, um escritor. “Nabuco tem uma obra desgraçadamente atual pelo fato de que o Brasil não resolveu o seu pecado original, que é apostar na desigualdade, que é exercer de modo impecável a desigualdade”, articulou o jornalista e historiador.

Em “Camões e os Lusíadas”, publicada pela primeira vez em 1872, Nabuco exalta a maior obra de um dos seus grandes mestres literários: o português Luiz Vaz de Camões. Para Mario Helio, a atualização desta obra – escrita por um Nabuco jovem de apenas 22 anos – é uma forma de trazer luz à obra do patrono da Fundaj e aproximar as novas gerações do seu legado. “Essa edição traz alterações em relação à edição original. Há um esforço para torná-la contemporânea nossa. Significa que atualizamos a ortografia. O livro estava escrito como no século 19. Também tivemos o cuidado de traduzir todas as citações em latim para que a leitura se torne mais confortável para o público de hoje”, explicou.

O presidente da Fundaj Antônio Campos aproveitou a ocasião para homenagear João Ferreira do Nascimento, antigo morador da comunidade Massangana, localizada no entorno do engenho. Ao pedir uma salva de palmas para o ancião, que estava presente no evento, relembrou que foi com mãos como as dele que o Brasil foi construído. Seu discurso exaltou o legado de Nabuco e destacou a dívida da escravidão carregada pelo nosso país, que precisa celebrar a memória e o legado afrodescente com mais destaque. Antônio Campos ainda pontuou que o Brasil do ideário de Nabuco e a abolição só se complementarão quando diminuímos a desigualdade social em nosso país.

Após os discursos, os presentes puderam conferir as novas exposições do equipamento cultural. O museólogo Henrique Cruz, curador da exposição “Masanganu: memórias negras” junto a Victor Carvalho, explicou a idealização que culminou na mostra. “A gente pensou essa exposição no sentido de romper com uma narrativa de que só se falava de Joaquim Nabuco aqui. Esse espaço é preservado como patrimônio por causa dele, mas, ao mesmo tempo, a gente descobriu o nome de 52 escravizados que conviveram com Joaquim Nabuco e nunca foram expostos, nunca foram apresentados”, contou o curador. Esses nomes dos escravizados que trabalharam no Engenho Massangana, junto detalhes como idade e ocupação, agora tomam uma parede da exposição que tenta trazer luz às suas vidas apagadas pela falta de documentação e pelo flagelo da escravidão a que foram submetidos.

Outra exposição que cumpre com o novo propósito do Parque Nacional da Abolição, no Engenho Massangana, é Jeff Alan: pra deixar de ser “pra inglês ver”, que traz imagens ressignificadas de importantes personalidades negras da cultura afro-brasileira e do abolicionismo, como André Rebouças, Luís Gama, José do Patrocínio, Machado de Assis e Carolina de Jesus, além de figuras do cotidiano atual que vivem na comunidade Massangana. “Fico muito feliz, na condição de artista, de estar expondo aqui e muito mais feliz em ver um equipamento de cultura, um equipamento público, funcionando, ativo, com tanta gente que saiu de casa cedinho pra prestigiar a exposição”, comemora o artista Jeff Allan, que faz questão de não deixar o passado escravocrata do engenho cair no esquecimento. “Eu acho importante a gente não esquecer que mais de 50 negros foram escravizados aqui. Que aqui foi um celeiro de tantas dores, de tantos sonhos interrompidos. E eu trago isso em minha obras. Eu retrato personalidades negras, abolicionistas, músicos, escritores, mas a gente sabe que isso não vai mudar a história que já está enraizada aqui. Porém, a partir do momento que a gente traz essa exposição, eu espero que isso nos leve a reflexões, a buscar saber quem são essas pessoas, e o legado que cada uma deixou. Que isso seja um pingo de esperança para possíveis mudanças num futuro próximo. A minha pintura fala muito sobre mim, sobre os meus. São 12 pinturas, mas que tem milhões de pessoas retratadas em cada obra dessa”, revela o pintor.

O evento encerrou-se com a apresentação do Afoxé Ilê Xambá, enchendo de música e dança do povo negro a casa onde viveu o abolicionista Joaquim Nabuco. O grupo ajuda a difundir uma expressão cultural que resiste, apesar de anos de opressão aos negros e ao seu legado. “Pra gente, estar aqui é a construção de uma nova história. A história com um olhar daqueles que de fato construíram tudo isso aqui. A mão de obra utilizada para erguer casa grande e as outras estruturas. É importante estar aqui hoje nesse espaço onde nossos irmãos estiveram numa condição de escravidão e hoje poder contar uma outra história, que com certeza vai sair com o nosso olhar, com a nossa vivência” , aponta Gleydson Silva, secretário da Casa Xambá.

As manifestações culturais e espirituais que tem a ver com as raízes do povo negro e eram expressadas às escondidas, reprimidas, viraram atração principal no novo formato do Engenho Massanga e contagiam quem vai visitar o espaço, reafirmando a potência das influências afrodescendentes que precisamos resgatar. O equipamento cultural abre de terça a sábado, das 9h às 16h, e aos domingos, das 10h às 15h. A entrada é gratuita.

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